Conto do Dia – Conto da Andorinha

por estaçãodapoesia

Conto da Andorinha

No dia depois de ontem o céu está cinza. Não me canso de olhá-lo. Sai do meu mundo cautelosamente, para ninguém ouvir. Pé ante pé segui a estreita bancada, até ficar de frente para o céu. Abri minhas asas, adormecidas, alongando-as. Não me atrevi a olhar para baixo. De olhos fechados senti o vento mover minhas penas. Dia perigoso para voar, o dia depois de ontem. Abri os olhos lentamente e deixei-los seguir a linha do horizonte. Depois dos morros estava o mar, tinha certeza. Ninguém me dissera, mas eu tinha certeza. Encurvei meu corpo e com minhas patas dei o impulso para conseguir saltar. No ar alonguei o bico, em uma postura aerodinâmica. Bati algumas vezes as asas para estabilizar e planei sobre as mangueiras. De cima tudo é diferente, as cores são diferentes, as formas também. Impossível de explicar, só sentindo. Eu contra o vento cada vez mais, ele tentava me desestabilizar e eu o cortava. Uma briga silenciosa e cansativa. O vento batia gélido em meu rosto como se quisesse me acordar de um sonho. Mas o céu cinza me confortava, e eu continuava. Só ia parar no mar. Os outros pássaros iam no sentido oposto, me olhavam com ar de duvida, mas como todos os outros pássaros são pássaros, seguiram com o seu voo. E eu continuei.

Por lara b.

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